Wednesday, October 20, 2010

O Silêncio das Palavras

Louco
(Hora do Delírio)
  

""Não, não é louco. O espírito somente
É que quebro-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea

Achou pequeno, o cérebro que o tinha:
Suas idéias não cabiam nêle;
Seu corpo é que lutou contra sua alma,
E nessa luta foi vencido aquêle.

Foi uma repulsão de dois contrários:
Foi um duelo , na verdade, insano:
Foi um choque de agentes poderosos:
Foi o divino a combater com o humano.

Agora está mais livre. Algum atilho
Soltou-se-lhe do nó da inteligência:
Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
Entrou agora em sua própria essência.

Agora é mais espírito que corpo:
Agora é mais um ente lá de cima;
É mais, é mais que um homem vão de barro:
É um anjo de Deus, que Deus anima.

Agora, sim - o espírito mais livre
Pode subir às regiões supernas:
Pode, ao descer, anunciar aos homens
As palavras de Deus, também eternas.

E vós, almas terrenas, que a matéria
Ou sufocou ou reduziu a pouco,
Não lhe entendeis, por isso, as frases santas,
E zombando o chamais portanto: - um louco!

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea"

          Junqueira Freire: Louco (hora do delirio) in: 100 poemas essenciais da língua portuguesa, p. 99/100.

"Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz" (balada do maluco, Mutantes: Arnaldo Baptista/Rita Lee)

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