Monday, June 14, 2010

A Silêncio das Palavras

O Lutador

Lutar com palavras é a luta mais vã.
Entanto lutamos mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria poder de encantá-las.

Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas
para meu sustento num dia de vida.
Deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem
e não há ameaça e nem há sevícia
que as traga de novo ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo de rara humildade.
Guardarei sigilo de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam, perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras parece sem fruto.
Não têm carne e sangue...
Entretanto, luto.

Luto corpo a corpo, luto todo o tempo,
sem maior proveito que o da caça ao vento.
Não encontro vestes, não seguro formas,
é fluido inimigo que me dobra os músculos
e ri-se das normas da boa peleja.

Iludo-me às vezes, pressinto que a entrega se consumará.
Já vejo palavras em coro submisso,
esta me ofertando seu velho calor,
outra sua glória feita de mistério,
outra seu desdém, outra seu ciúme,
e um sapiente amor me ensina a fruir de cada palavra
essência captada, o sutil queixume.
Mas ai! é o instante de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca, tudo se evapora.

O ciclo do dia ora se consuma
e o inútil duelo jamais se resolve.
O teu rosto belo, ó palavra,
esplende na curva da noite que toda me envolve.
Tamanha paixão e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas, a luta prossegue nas ruas do sono.
Carlos Drummond de Andrade

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